Publicado por: Ricardo Shimosakai | 29/11/2010

Plano de viagem, um passaporte para a felicidade


* Esta matéria foi escrita para a Reação – Revista Nacional de Reabilitação, Ano XIII, número 71, edição bimestral de novembro/dezembro. São Paulo: Editora C&G 12 Comunicação e Marketing, p. 22-23, novembro de 2009.

Final de ano é época de festas, temporada de férias escolares e do trabalho, e onde surge a oportunidade de aproveitar esse espaço de tempo mais livre para descansar e viajar. Para pessoas com deficiência, ainda há um outro fator que precisa ser levado em conta, a liberdade de escolha. Embora o direito de ir e vir seja um direito de todos, é preciso cautela para que sua viagem dos sonhos não se transforme numa grande decepção.

Basicamente há dois diferentes grupos de turistas, desde os mais independentes que preferem organizar a viagem pessoalmente, e ficar em hospedagens econômicas como os famosos albergues, caminhar bastante ou utilizar transporte público, que são os chamados mochileiros. Para quem não quer ter o trabalho de ficar pesquisando locais e serviços turísticos, prezam a privacidade de um hotel, além de um transporte mais confortável, existem as agências de turismo que realizam toda a parte operacional da viagem.

Para pessoas com deficiência que querem organizar sua própria viagem, devem ter consciência que é uma tarefa que requer cuidado dobrado, caso não tenham experiência em viajar. Tudo começa na coleta de informações, pois apesar de muitos produtos e serviços turísticos se nomearem como adaptados, sempre é bom tomar cuidado e verificar a credibilidade dessas informações.

Em seguida, o transporte também deve ser verificado. A cadeira de rodas do usuário é colocada no local de bagagem e não pode ser tarifada. No transporte aéreo, quem usa cadeira motorizada deve ter cuidado, pois por normas de segurança, baterias líquidas são inflamáveis e não podem ser transportadas. Caso não seja seu caso, é aconselhável levar um documento que comprove isso. O atendimento é preferencial nos balcões de check-in, e caso necessário, a companhia aérea pode disponibilizar um funcionário para auxiliá-lo. Se previna para aguentar ficar sem ir ao banheiro até o desembarque, apesar de que em ônibus sempre há paradas em viagens de longo percurso, em aeronaves esse procedimento se torna mais complicado.

Escolher o local onde ficará hospedado é um dos cuidados mais importantes, pois provavelmente será onde irá dormir, fazer sua higiene (tomar banho, trocar de roupa, escovar dentes, etc.) e tomar café da manhã todos os dias. Além do quarto, a acessibilidade no banheiro também deve ser verificada com detalhes, e outros detalhes que o local possa oferecer como piscina, salão de jogos, entre outros. As hospedagens, apesar de seguirem alguns padrões, também possuem características diferentes. Dependendo da hospedagem, também existem tipos de quartos diferentes, embora em relação aos quartos adaptados, geralmente existe somente um tipo.

Também há a questão que envolve pessoas com mobilidade reduzida mais severa, como no caso de uma pessoa com tetraplegia, que precisa de auxílio na locomoção, alimentação, troca de roupa e banho entre outras atividades básicas, sem contar os passeios. Para isso, planejar uma viagem independente sem um acompanhante se torna mais complicado. Os hotéis, atrativos turísticos e restaurantes dificilmente oferecem esse serviço, além de ficar complicado se locomover pela cidade.

Existem diversos segmentos do turismo, então cada um deve ser analisado de forma específica em relação à acessibilidade, observando suas características particulares. Os principais e mais procurados são o turismo de praia, montanha, aventura, marítimo, cidade, marítimo e internacional. Somente citando algumas dessas características, nas praias a areia dificultam a locomoção, na montanha temos desníveis e mata, aventura é preciso questões de segurança específica a pessoas com deficiência, na cidade acessibilidade arquitetônica, marítimo a estrutura de portos e navios, e no internacional atenção a vistos, passaportes, além de estar atento a locais para consertar sua cadeira de rodas ou comprar materiais como sondas uretrais.

Numa pesquisa realizada por mim, onde foi perguntado qual o primeiro critério usado para a escolha dos lugares que costuma ir, o resultado foi: tenha acessibilidade (65%), seja um bom programa (22%), seja de fácil transporte (6%), outros (4%), seja econômico (0%). A acessibilidade para alguns, pode estar relacionado em ser um bom programa, e o local pensado pode ter sido uma simples atividade de lazer até uma viagem, porém é analisado o pensamento da pessoa em relação à sua saída, e não ao local de visita, pois este não é especificado. É recomendável pesquisar a acessibilidade do local antes de visitá-lo, principalmente para pessoas com grande dificuldade de locomoção e que, por exemplo, utilizam cadeiras motorizadas grandes e pesadas.

Hoje em dia, com a tecnologia mais presente em nosso cotidiano, é mais fácil verificar os atrativos e serviços turísticos através de sites e e-mails. Porém muitos colocam informações de maneira errada por não terem um conceito correto sobre acessibilidade, ou então apesar do local ser acessível não divulgam essas informações. No Brasil os serviços como centrais ou guias de informações turísticas ainda não possuem um critério de qualidade para analisar e informar a acessibilidade de forma correta e atualizada. Mesmo assim é sempre bom consultar guias turísticos ou informativos com a programação cultural local atualizada, para saber quais ofertas de atrações estão disponíveis na época da visita.

Alguns atrativos como museus, teatros, cinemas, parques oferecem meia entrada ou até isenção da tarifa para pessoas com deficiência, porém isso não é uma regra, e os locais geralmente não têm uma política própria definida quanto a isso. Então vale a pena perguntar se o local oferece esse benefício, mas o direito de atendimento preferencial é um direito garantido por lei. Dependendo do local, também há monitores para dar informações e auxílio ou visitas guiadas que normalmente devem ser agendadas.

Outro item característico de uma pessoa com deficiência é o tempo gasto nos passeios. Mesmo um local com boa acessibilidade com uma moderna plataforma elevatória que funciona por comandos do próprio usuário, isso acaba consumindo mais tempo do que uma pessoa sem deficiência que consegue subir a escada. Às vezes precisamos procurar entradas alternativas para acessar o local, ou então localizar um cruzamento ou passarela acessível em uma grande avenida. Individualmente podem representar poucos segundos a mais, ou até fazer com que isso atrapalhe significativamente sua viagem, então também é importante contar com tempo extra para resolver esses problemas, ou então ter um plano B se improvisação e criatividade não for seu ponto forte.

Para quem não quer passar por todo esse trabalhoso processo investigativo anterior à viagem, mas mesmo assim quer ter segurança que sua viagem será uma experiência prazerosamente inesquecível, existe agências especializadas para atender pessoas com deficiência e que oferecem pacotes turísticos acessíveis. A Turismo Adaptado é uma das únicas operadoras turísticas brasileira que elabora roteiros adaptados às pessoas com deficiência e mobilidade reduzida para diversos destinos brasileiros, e em acordo com agências do exterior também oferece serviço especializado para diversos destinos internacionais. Preparar sua viagem é como cozinhar. Se a comida não for preparada corretamente, você corre o risco de ter uma grande indigestão, ou senão outra escolha é escolher um restaurante de qualidade.


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