Publicado por: Ricardo Shimosakai | 14/03/2011

Conexão turística acessível França-Brasil com Marie-Odile Vincent.


Marie-Odile Vincent, francesa, cinquenta anos, trabalha na Comptoir de Voyages, um agência de viagens que atende pessoas com deficiência. Teve pólio aos 3 meses de idade deixando suas pernas e braços sem força muscular. Sua infância se resume entre as instituições hospitalares, os períodos de educação e de raros momentos com sua família. Aos13 anos, ela passou um ano deitado sobre uma maca. “Meu horizonte era limitado a uma almofada”, diz Marie-Odile. “Eu não sabia nada do mundo exterior, nem mesmo o preço de uma baguete”. Os livros foram suas primeiras viagens. Aos 15 anos, agora em sua cadeira, ela finalmente pode olhar em frente, este mundo não conhecia.

Ricardo Shimosakai encontrou Marie-Odile por acaso no Peru, em pleno Machu Picchu. Numa rápida conversa, trocaram contatos. Algum tempo depois, Marie-Odile entrou em contato dizendo que queria conhecer o Brasil, e Ricardo Shimosakai que na época era Coordenador da Freeway Acessível, assumiu toda a preparação de sua viagem.

Desembarcou no Brasil curiosa para escapar e descobrir novos horizontes. Durante dez dias, o seu trabalho foi avaliar a acessibilidade dos hotéis, lugares para visitar, observar … Do Rio de Janeiro à Bonito passando pelo Pantanal, com sua cadeira de rodas motorizada, algo bastante notável. Altura, largura, dificuldades, impossibilidades, assistência humana para fornecer … impotantes dados que permitirão que um operador turístico consiga adaptar sua proposta. Marie-Odile Vincent já pesquisou destinos como Bali, Veneza e Peru. Onde quer que fosse, ela testava e procurava achar uma soluções se houvesse um problema. Ela queria que outras pessoas pudessem desfrutar das mesmas coisas como ela.

Percebeu que no mercado hoteleiro brasileiro, muita coisa está errada. Nos hotéis por onde passou, chamou a responsabilidade para si, e passou a dar algumas ordens para que pudesse utilizar as hospedagens de um modo melhor. O botão do ar condicionado era inacessível, então devia ser desligado à noite. Mandou retirar a porta do box do chuveiro. As normas de acessibilidade impostas não conseguem atender à todas as deficiências. A deficiência é um privilégio e sofrimento. Sofrimento porque minha aparência não deixa indiferente por pessoa. Um privilégio, também, porque minha relação com os outros são intensos, pois sempre preciso de ajuda. Não é trivial!

Sua passagem pelo Rio de Janeiro foi rápida. Conheceu um lado popular da cidade, andando de metrô, indo até o conhecido mercado popular Saara, e se descontraindo numa roda de samba. Não poderia de conhecer o Corcovado com o Cristo Redentor, e mais alguns locais culturais como a Biblioteca Nacional.

Do Rio de Janeiro para Bonito. Marie-Odile utiliza uma cadeira motorizada de 120kg fora seu peso, e com ela que chega perto do Rio Formoso, onde percebe a mobilização da equipe que a acolheu. Tudo foi pensado e preparado com detalhes. Rogério, o guia que a acompanhou em toda sua passagem por Bonito, pediu para experimentar o equipamento que ele preparou e explicou como usá-lo. Uma bóia na extremidade da canoa para manter a estabilidade durante a descida do rio. Esta bóia permitia a ela sentar e assegurava o equilíbrio e conforto. Depois de descida algumas quedas d’água com o bote, um merecido e delicioso banho em baixo da cachoeira.

Sentada em uma velha ponte de madeira, Marie-Odile chora. Lágrimas de cansaço, mas principalmente alegria. Ela conseguiu! Um mergulho de snorkel nas águas cristalinas do rio de Mato Grosso do Sul, região central do Brasil, ela empurrou os limites que seu corpo e suas pernas não podem normalmente cruzar. No entanto, uma hora antes não conseguia se estabilizar, relaxar. Mas por força de determinação, ela finalmente encontrou a posição certa. Exaustos, mas felizes, os olhos brilhantes dizer mais do que toda a sua alegria grande ter ganho a sua aposta.

A próxima etapa da viagem foi seguir para o Pantanal. Oportunidade de conhecer animais como tucanos, papagaios, jacarés e tamanduás, que são símbolos de nossa fauna em seu ambiente natural. Fez um passeio a cavalo, além de experimentar deliciosas comidas típicas que completam todo um cenário para uma viagem fantástica,

Marie-Odile conclui sua missão brasileira. Quando eu embarcava para Paris um agente da companhia aérea nos informou que as baterias da cadeira motorizada não ofereciam todas as garantias de segurança. Ele recusava-se a embarcar. Na porta do avião, meia hora de discussão até que, relendo as instruções, ele descobriu a instrução “sem restrições para transporte aéreo”. 12 horas mais tarde, aterrissagem no aeroporto de Roissy Charles de Gaulle. A cadeira parecia ter sido atingida por um tanque e ficou permanentemente inutilizável. Faltou preparo da parte dos funcionários da companhia aérea, em compreender que a cadeira de rodas não é um simples objeto, mas é praticamente uma extensão de nosso corpo.

Apesar de tudo a experiência de Marie-Odile no Brasil foi inesquecível. Proporcionar o prazer para que todas as pessoas possam conhecer as belezas naturais e a hospitalidade brasileira, é o trabalho que a Ricardo Shimosakai, agora como Diretor da Turismo Adaptado, tem feito com muita vontade. E da mesma forma, tem Marie-Odile como representante da Comptoir Voyages, como sua referência para conhecer os encantos da França. Juntos trabalhando para tornar o turismo uma prática mais acessível e inclusiva.


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