Publicado por: Ricardo Shimosakai | 18/05/2011

Quando as pessoas com deficiência serão respeitadas pelas companhias aéreas?


Este texto foi baseado no artigo de Adriana Lage para o site BH Legal

O Brasil ratificou a Convenção da ONU, na qual a falta de acessibilidade é considerada um tipo de discriminação. Como, em nosso país, discriminação é crime, já está mais do que na hora de tornarmos a acessibilidade uma realidade. Eu, particularmente, sempre viajo de avião. Cada ida ao aeroporto é uma novela. É impressionante o descaso das companhias aéreas em relação às pessoas com deficiência. A única forma que encontrei para ser um pouco mais respeitada foi andar com uma cópia da Resolução Nº 009, de 05 de junho de 2007 da ANAC, que garante a assistência às pessoas com deficiência em viagens aéreas. Mas, infelizmente, não me lembro de nenhuma viagem em que não tenha tido problemas.

No Aeroporto Internacional Tancredo Neves em Confins, existe um balcão rebaixado para cadeirantes. Só que, em todas as vezes que precisei, os atendentes preferiram me atender nos balcões mais altos. No dia em que perguntei à atendente se o balcão rebaixado servia apenas de enfeite, quase fui linchada!! Precisavam ver a cara da mulher!!

Ainda mais que pedi tudo o que tinha direito: auxílio para entrar na aeronave, etiqueta preferencial, etiqueta de frágil e saco plástico para proteger a cadeira de rodas, me recusei a usar a cadeira da empresa aérea indo com a minha até a aeronave, não assinei uma declaração isentando a empresa da responsabilidade de cuidar da minha cadeira, etc. Minha irmã saiu de perto para dar risadas. Nas outras companhias aéreas, também sempre fui atendida em balcões altos. Quando estou atacada, faço o atendente sair do lugar pra pegar meus documentos.

A resolução exige a utilização de cinto de segurança auxiliar para tetraplégicos, mas sem fiscalização, as empresas não cumprem esta exigência. Só que, muitas vezes, a tripulação nem sabe da existência dele! No ano passado, quando voltava de Brasília para BH, pedi a comissária de bordo que colocasse o cinto em mim. A mulher custou a encontrá-lo. Depois, não soube colocá-lo. Reclamei e ela teve que recorrer à outra tripulação. Quando percebi, apareceram 3 outros funcionários para tentar colocar o cinto em mim. Nem assim, ele ficou 100% certo. Acho que falta treinamento em relação a isso.

Acho muito desagradável ser carregada pelas escadas. Sempre que posso, me recuso. Mas, a pressão é grande. Tanto dos funcionários quando dos familiares que ficam envergonhados com todo mundo olhando. Embora as companhias aéreas falem que possuem pessoal treinado, sempre me deparo com algumas pessoas despreparadas. Em 2008, ao desembarcar no “submundo” do Galeão/RJ, dois funcionários da companhia aérea carregaram minha cadeira de rodas. Aleguei que havia visto vários fingers desocupados na pista e que não queria ser carregada. Falei sobre a Resolução da ANAC e nada. Como havia trabalhado o dia todo e já eram 00h 40min, acabei me rendendo pelo cansaço. Saímos debaixo de chuva. Quase caímos. Cheguei ao solo com meu pescoço tombado pra trás.

Outra vez, em Vitória/ES, insisti que queria o ambulift para entrar na aeronave. O aeroporto, que é pequeno, estava lotado. O funcionário da companhia aérea queria me convencer de todo jeito. Falou que os vôos estavam atrasados e que demoraria muito para me colocarem lá dentro com o ambulift. Foi juntando gente no check-in… Minhas irmãs e minha prima falaram que estavam morrendo de vergonha com o povo olhando feio pra gente. Como o atendente era bem bonitinho e me garantiu que me levaria em segurança, acabei me rendendo. Mas ele teve que me carregar no colo sem a cadeira de rodas!!

Fico indignada com aeroportos que possuem fingers e obrigam cadeirantes a serem carregados. É muito desconfortável e inseguro. Eu poderia jurar que nunca desceria escadas no Galeão. Doce ilusão!! Andei de ambulift em 3 aeroportos e foram experiências meio traumáticas. Minha primeira vez foi em Vitória/ES. Todas as pessoas desceram e eu fiquei à espera. Depois de uns 20 minutos, o equipamento chegou. Só que, por falta de utilização, os funcionários não sabiam operar o equipamento. Lá se foram mais preciosos minutos! Sem brincadeira, devo ter gasto uns 50 minutos para conseguir chegar à área de desembarque! Na volta pra casa, acabei indo pelas escadas por força das circunstâncias.

Minhas segunda vez foi em Goiânia. A descida pelo ambulift foi tranqüila. Já na volta… O ambulift cabia duas cadeiras de rodas, em fila, e o operador. Fui no fundo. A geringonça é aberta, apenas com uma barra nas laterais. O operador do ambulift travou as cadeiras de rodas e começou a operar o equipamento. Na hora de acoplá-lo a porta da aeronave, ele deu uns pulos. Eu morri de medo. A altura é bem grande para arriscar levar um tombo de lá. Foi só minha cadeira se mexer um pouco que me manifestei. O operador me garantiu que eu não cairia de lá. Pode até ser, mas se fosse tão seguro, por que ele estava segurando em uma das barras? O Diego, o outro nadador cadeirante, segurou minha cadeira de rodas e me acalmou. Falou que não me deixaria cair de lá; se caísse, ele iria junto.

Já, o ambulift que andei em Brasília, é fechado. Parece um container. Fomos 3 cadeiras de rodas e um funcionário. Ainda tinha muito espaço sobrando. O funcionário travou nossas cadeiras de rodas. Sabe-se lá por que, o equipamento começou a pular e as cadeiras de rodas começaram a andar sozinhas mesmo travadas. O funcionário não sabia quem socorria primeiro. Como era a mais leve dos três cadeirantes e, provavelmente, a mais medrosa, tratei logo de fazer um escândalo e garantir ajuda!! Enfim, não gostei das experiências que tive com ambulift!

Outra coisa que me deixa indignada é o descaso/demora nas respostas da ANAC. Sempre que tenho problemas, abro uma ouvidoria. Desde 2008, aguardo resposta de um chamado sobre a utilização de cadeira de rodas motorizada em viagens aéreas. Nas outras vezes em que reclamei, após meses, fecharam meu chamado informando que a empresa aérea havia informado que recebi o atendimento correto e que lamentavam caso eu estivesse insatisfeita. No final das contas, reclamar junto à ANAC e nada, foram quase a mesma coisa.

Enfim, o descaso com passageiros com deficiência ainda é grande. Já me cansei de reclamar sobre isso nos meus textos. Já tivemos algumas melhorias. Mas, ainda falta muito. Tem funcionário que nem sabe que a Resolução 009/007 da ANAC existe!! O treinamento dos funcionários é bem falho! É raro encontrar um funcionário que sabe transferir, corretamente, um tetraplégico para o assento do avião. Já perdi as contas das vezes em que fui: apertada/agarrada por funcionários que não sabiam me carregar, trombei alguma parte do meu corpo no avião, fiquei com a calça caindo ou com o sutiã aparecendo… Viajar de vestido ou saia, só estando com uma lingerie bem bacana e com a depilação em dia! Nunca que se sabe que tipo de funcionário irá nos atender.

Outra coisa desagradável é a troca de assentos nas primeiras filas. Já fui obrigada, por exemplo, a me sentar na 6ª fileira, mesmo tendo solicitado assento preferencial com 1 mês de antecedência, porque na primeira fila estavam viajando uma mãe com duas filhas maiores de 9 anos. Como a cliente possuía cartão fidelidade, era vip e tinha mais preferência que pessoas com deficiência. Infelizmente, em muitos casos, para fazermos valer nossos direitos, somos taxados de chatos e chiliquentos. Mas, se não reclamarmos, fica mais difícil mudar a situação.

Fonte: BH Legal


Respostas

  1. Gostei muito desse texto. Como trabalho em uma companhia aérea, em BH, sei o que ela disse está correto. Na verdade, o aeroporto de Confins pode até atender algumas necessidades, mas não permite acessibilidade total, como em todos brasileiros. Quando falo em todos é porque não adianta apenas algumas melhorias. O acesso tem que ser total, e isto nenhum aeroporto e companhia aérea oferece no país.
    No caso dela, acredito que a única forma de tentar resolver é denunciar para que todos saibam onde há um mal atendimento. Enquanto isso ela vai ganhando dinheiro na justiça.
    Quando estou no meu turno, prezo pela segurança deste passageiro. Avaliamos quando haverá algum cliente cadeirante e pedimos para a INFRAERO permissão para posicionar nossas aeronaves nos fingers. As vezes isto não acontece e temos que trabalhar com as nossas possibilidades. O que não é desculpa. Se o cliente se sentir prejudicado, indico que procure o gerente e questione seus direitos.

    • Também achei muito bom o modo como você colocou sua opinião, a respeito da situação real e o modo como devemos proceder. Infelizmente não é atraves da boa vontade que as coisas irão mudar, e sim de forte pressão

      • Vejo as coisas da seguinte forma… Assim como em outras áreas, só passaram a nos respeitar a partir do momento que viram-nos como veículo de fomento da economia… Só conseguimos “respeito” em vagas preferenciais, isenções, preferências em filas, etc… a partir do momento que passaram a nos ver como grandes consumidores, assim um nicho de mercado inexplorado, é absurdo, ainda, os valores praticados pelos fabricantes de produtos que nós, deficientes, precisamos. Uma cadeira de rodas, simples, em média custa 3 mil reais. Poderia ter subsídio no IPI para o fabricante, assim ele barateia para nós…. As famosas almofadas RoHo… por que um produto como aquele não é fabricado aqui?!
        Da mesma forma, a partir do momento que os deficientes passarem a utilizar o avião como meio de transporte comum, as coisas irão começar a mudar!

        Sergio

        • Em alguns casos há questões que não há brechas para se pensar se devem ou não fazer, como por exemplo a segurança. Na aviação esse ítem está presente, então a acessibilidade deve ser cumprida sem pensar muito, afinal descer um cadeirante através de escadas num desembarque remoto não é um procedimento seguro. Mais além, praticamente nenhum funcionário tem um bom treinamento para realizar esse procedimento, e eu já fui derrubado e acabei me ferindo e tendo a minha cadeira de rodas danificada

  2. Devemos começar a divulgar nomes das empresas que prestam esses “mal-serviço” em redes sociais e em outras mídias pois, aqui somos muitos!!! E mudarmos as coisas, devemos ter mais senso de mudança e mudar, veja o Churrasco da Gente diferenciada, estamos entrando em outros tempos …. devemos apreender a pegar carona nisso e mobilizar a causa, fazer valer esse direitos!!! Devemos reclamar nos lugares certos, pras pessoas certas, quem sabe denunciar pro Ministério Público com a Globo por trás, com uma reportagem …tenta …

    • Concordo com todos o único meio, infelizmente, é o “barraco” literalmente falando… Estudo na Cultura Inglêsa (é só um exemplo, viu?!) há anos e notei o descaso para comigo, que me locomovo por cadeira de rodas. Precisei da ajuda dos “Diários Associados” para conseguir um banheiro adaptado para mim… Anos!! Nesse meio tempo, eles abriram duas filiais, que não tinham banheiros adaptados… Era a mesma resposta: estamos avaliando com uma arquiteta. Ora, entra ano, sai ano era a mesma coisa. Agora, resolvi apelar para o barraco. Passei um e-mail para todos os orgãos competentes e além disso os meios de telecomunicações, incluindo o melhor jornal de Belo Horizonte “O Estado de Minas” se comprometeu a fazer uma matéria, porque a situação da Cultura era um absurdo com 12 unidades, NENHUMA tinha um banheiro adaptado para que eu pudesse usar… Coloquei isso tudo, num e-mail e enviei, em menos de um mês consegui a adaptação. O repórter telefonou para a Cultura Inglêsa pedindo uma reportagem sobre banheiros adaptados, com a coordenação da filial em que eu estudo e… Assim que eles telefonaram, a coordenadora me ligou e pediu para que eu retirasse a queixa, pois sou a única a me locomover por cadeira de rodas, lá… Não costumo viajar de avião, principalmente agora numa cadeira de rodas, e fui super “bem-tratada” no Aeroporto Santos Dumont…

    • Na verdade, nenhuma companhia aérea tem um bom atendimento para pessoas com deficiência no Brasil. A cobrança e denúncia é uma boa prática, senão nossas dificuldades acabam passando despercebidas.

  3. Sei muito bem como é isso, meu pai tem esses mesmos problemas quando viaja! e como ele usa bengalas acham que pode andar até o meio do avião ou fica horas esperando um funcionário levá-Lo na cadeira de rodas da empresa aérea.
    Outra coisa que ele se queixa é que geralmente as pessoas não fazem perguntas diretamente a ele e sim a que o esta acompanhando, pois acham que o deficiente é surdo ou não sabe falar.
    Gostaria se possivel, que você me enviasse uma cópia dessa resolução 009/007 da anac.
    Atensiosamente,
    Kátia van Drunen

    • Olá Katia,
      Já coloquei no post, um link para você baixar a Resolução Nº 009, de 05 de junho de 2007 da ANAC. Falta treinamento dos funcionários em como atender pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. Minha proposta é colocar uma equipe especializada para atender esses casos, mas com a abrangência de atendimento para todo o aeroporto e todas as companhias aéreas

  4. Pois é, eu sou Engenheiro Aeronáutico, mestrando … viajo sempre de avião e nada muda, tudo igual… descaso, desrespeito e, algumas vezes, até nos ignoram… mas a partir do momento que digo ser engenheiro aeronáutico a coisa muda de figura, pois eles sabem que conheço bem a operação e as leis que uma cia aérea deve cumprir…

    Por que em nosso país os direitos, sejam quais forem, apenas são respeitados perante ameaças e nossos deveres como cidadãos e tudo mais são impostos para nós como em uma ditadura?!

    • Olá Sérgio,
      Não sei exatamente se existem normas para acessibilidade em aeronaves comerciais. Não acho que seja bom um cadeirante viajar sentado em sua própria cadeira de rodas por questões de segurança, mas ter espaço para uma cadeira de rodas transitar entre os corredores, e também para o banheiro. Não sei exatamente a regra para as primeiras poltronas possuirem braços das poltronas fixos, mas isso atrapalha na transferência, e muitas vezes nos colocam nessa primeira fileira.

      • Ricardo, realmente não há normas que asseguram acessibilidade no projeto de aviões… até pq, para isso ocorrer haveria de ter um consenso mundial e não só no Brasil. Na minha opinião, o que deveria ser obrigatório é ter as primeiras poltronas com os braços removíveis para facilitar a transferência… cansei de voar nos ATR da TRIP e ter que fazer uns malabarismos para passar pra poltrona. O uso do banheiro também é um problema, ele já é extremamente estreito por natureza, imagina com um cadeirante… difícil imaginar… isso poderia ser mudado… mas…

        • Sim, eu sempre digo que, se nem países que dão tanta importância para a acessibilidade como Alemanha e Estados Unidos, os aviões da Lufthansa e American Airlines não possuem acessibilidade, será muito difícil ter uma mudança. Já vi um projeto de um avião com banheiro acessível, mas deve ter sido somente para chamar atenção


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