Publicado por: Ricardo Shimosakai | 18/08/2011

A realidade para a Pessoa com Deficiência enquanto turista


Este artigo foi escrito por Bruna de Castro Mendes e Ricardo Shimosakai para apresentação na segunda edição do Simpósio “Formação e Atuação Profissional em Turismo, Lazer e Hospitalidade”, realizado na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH – USP Leste) da Universidade de São Paulo (USP) nos dias 23, 24 e 25 de maio de 2011. Trata-se de evento apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

INTRODUÇÃO

Os últimos anos apresentaram uma modificação em relação aos conceitos e pré-conceitos referentes às pessoas com deficiência. Hoje, percebe-se que elas caracterizam uma parcela que precisa ter os seus direitos respeitados, assim como deveres, o que envolve toda a sociedade e não mais apenas a família, como ocorria no passado. Acredita-se que vem crescendo a necessidade de discussão acerca da inclusão desse segmento em decorrência das melhoras da assistência médica, do aumento do convívio social (em pequena escala), do acesso à educação e ao mercado de trabalho. Somados, esses fatores têm contribuído para um considerável aumento da expectativa de vida.

As mudanças enfrentadas atualmente afetam a sociedade em geral e refletem no turismo, pois a noção de hospitalidade ultrapassa as questões econômicas e os problemas de desenvolvimento e penetra no campo das idéias, religião, filosofia, tendo como pano de fundo a diversidade cultural (DENCKER, 2004). Diante desse fato exposto, é preciso permitir que as pessoas com deficiência possuam autonomia para se locomover, viajar e trabalhar, não sendo suficiente garantir apenas alguns lugares restritos para o convívio com outras pessoas. Pressupõe-se que esse fato perpassa pela eliminação de qualquer tipo de barreira, sendo que no presente estudo, destaca-se a comunicacional.

As observações apresentadas nesse presente resumo são frutos das experiências empíricas dos pesquisadores, envolvidos na temática e que lutam pelo correto acesso das pessoas com deficiência ao turismo. Destaca-se o caráter descritivo desse estudo, por enfatizar itens observados de maneira assistemática. 

TURISMO X DEFICIÊNCIA

Hoje, é ponto pacífico o direito das pessoas com deficiências às oportunidades de lazer, esporte e turismo como parte importante para o seu desenvolvimento e/ou bem-estar integral. O item primordial a ser considerado ao pensar o turismo para pessoas com deficiência é o exercício do empoderamento, pois todas as pessoas têm o direito de escolher entre as diversas opções de lazer, assumindo o controle de todo o processo de escolha e decisão, ampliando as próprias experiências e desenvolvendo as relações interpessoais e sociais.

Em nossa realidade, o setor do turismo não está preparado para atender os turistas deficientes, principalmente pelo fato de o mercado ainda não considerar esse segmento como um campo lucrativo. A contribuição do turismo é possibilitar que as pessoas com deficiência conheçam suas capacidades e desenvolvam suas habilidades de maneira prazerosa, em contato com ambientes diversos e pessoas fora do seu círculo habitual; é ajudá-la a compreender melhor aquilo que deseja e necessita, com vistas a um aumento na qualidade de vida e maior participação como cidadã; em suma, é fazer com que ela migre do papel de coadjuvante para o de protagonista.

Hospitalidade, turismo e inclusão são os conceitos que devem nortear um trabalho que vise à mudança de paradigma, afinal, a hospitalidade pode ser entendida como um meio de criar e consolidar relacionamentos; o turismo, uma das atividades pelas quais os relacionamentos se fortalecem; e a inclusão, uma meta direcionadora desse envolvimento. Se bem estruturado e pesquisado, o turismo poderá se tornar o mecanismo da disseminação da sociabilidade e da inclusão social, baseado nos preceitos da hospitalidade.

A REALIDADE

As barreiras comunicacionais caracterizam-se por qualquer entrave ou obstáculo que dificulte ou impossibilite a expressão ou o recebimento de mensagens por intermédio dos meios ou sistemas de comunicação, sejam ou não de massa (BRASIL, 2006c). São empecilhos comuns a falta de intérpretes da língua de sinais e a ausência da escrita Braile em elevadores e sinalizações.

Para que o turismo seja uma atividade agradável, a informação clara e objetiva é o primeiro passo e um dos itens mais importantes. A informação está presente em diversas partes do turismo, e em todas elas há a necessidade que a questão da acessibilidade esteja presente como conteúdo ou na própria estrutura da informação.

Contudo, há diversos casos em que a informação não é acompanhada do quesito acessibilidade. Centros de informação turísticas só sabem passar informações básicas sobre atrativos turísticos, como a localização de um museu, por exemplo, mas não informam se o local possui recursos de acessibilidade. O resultado é que muitas pessoas com deficiência recebem a indicação de uma visita, porém não tem condições de entrar ou de usufruir do ponto selecionado. O caso se torna um pouco mais dramático quando pensamos em um surdo: como ele irá obter informações de um atendente em um centro de informações? Seria limitado a receber os materiais impressos, sem ter a oportunidade de esclarecer qualquer outra dúvida através do atendimento verbal. Mas os materiais impressos também é um problema para um cego, pois dificilmente se encontra materiais escritos em Braille, e muito menos quando se trata de imagens ou mapas.

Em relação aos meios de hospedagem destaca-se que muitos estabelecimentos utilizam de um critério próprio para avaliar sua acessibilidade, sendo que na maioria dos casos ela se apresenta falha e incompleta. Mesmo se julgando acessíveis, destaca-se o fato de que muitos deles também não disponibilizam essa informação em seus materiais, como a página na internet e folhetos promocionais.

A informação acessível também poderia estar presente no guia de turismo para conduzir um cego através de áudiodescrição, ou um surdo através da linguagem de sinais. Inclusive isso se torna obrigatório quando se lida com a segurança, como por exemplo, passar instruções antes de uma atividade de aventura, ou mesmo as informações passadas pela tripulação no interior de uma aeronave.

É de grande importância que sejam repassados detalhes sobre as dificuldades do turista, para que este seja melhor atendido, caso contrário fica caracterizado como um cliente sem nenhuma dificuldade aparente, e deste modo os recursos de acessibilidade podem não estar disponíveis caso seja solicitado sem nenhuma antecedência.

A pessoa com deficiência física precisa de informações a respeito da estruturas físicas que dêem condições para a locomoção. Mas quando a gente parte para o campo da deficiência visual e auditiva, a questão da informação turística acessível é extremamente ampliada, e a necessidade da informação acessível acaba acompanhando essas pessoas em praticamente em todas as situações. A informação acessível também deve estar presente em museus, agências, parques, transportes, e qualquer estabelecimento ou serviço turístico.


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