Publicado por: Ricardo Shimosakai | 29/04/2012

Boris Casoy é um dos grandes jornalistas brasileiros. Sua poliomielite é somente um detalhe.


Boris Casoy A deficiência deixa marcas profundas. Um dos âncoras de telejornalismo de maior credibilidade da televisão brasileira, Boris Casoy 59 anos, autor do célebre bordão isto é uma vergonha, teve poliomielite ao completar um ano de vida

A doença deixou seqüelas físicas, mas a marca maior foi a psicológica, gerada pela discriminacão na infância. Ao Jornal da AME, fala com exclusividade sobre como aprendeu a lidar com a deficiência. Confira:

AME – Fale-nos sobre sua deficiência.

Boris Casoy – Eu tive poliomielite com um ano de idade, logo após meu aniversário. É uma história peculiar, porque eu tenho uma irmã gêmea e nós dois pegamos a doença juntos. Isso foi em 1942, e, na época não havia nenhum tipo de vacina. Minha irmã foi acometida de uma febre muito leve e minha mãe não separou os dois nenês. Minha irmã ficou paralisada e cinco dias depois eu fui acometido pela doença. Ambos ficamos com seqüelas.

AME – Fale-nos sobre sua deficiência. Boris Casoy – Eu tive poliomielite com um ano de idade, logo após meu aniversário. É uma história peculiar, porque eu tenho uma irmã gêmea e nós dois pegamos a doença juntos. Isso foi em 1942, e, na época não havia nenhum tipo de vacina. Minha irmã foi acometida de uma febre muito leve e minha mãe não separou os dois nenês. Minha irmã ficou paralisada e cinco dias depois eu fui acometido pela doença. Ambos ficamos com seqüelas.

AME – Como foi sua infância?

Boris – Minha infância foi difícil. Eu praticamente não andava. Minha perna direita não se sustentava: usava um aparelho que servia de estrutura. Praticamente, tinha apenas a perna esquerda. Era vítima da incompreensão das demais crianças, recebia apelidos como mula-manca e era colocado para fora nas brincadeiras, pois não podia correr. Eu era o que chamavam de café com leite: não valia. No pegador, as crianças às vezes se deixavam ser pegas; percebia que havia tarefas facilitadas para mim, tanto pela professora, como pelos colegas. Em 1945, 46, Psicologia não era uma coisa tão difundida, não havia uma determinada orientação pedagógica para tratar com cuidado, de maneira igual, as pessoas com deficiência. A forma como me tratavam, realmente marcava. Havia também aquelas professoras que diziam: coitado desse menino. E quando me queixava para minha mãe, ela, sem poder fazer nada, chorava. E eu me sentia culpado por fazê-la chorar, deixá-la triste. Relutava em levar para ela determinadas queixas, que seriam desabafos das coisas que me aconteciam e que me chocavam. Eu percebia que era um incômodo, estorvo. Muitas vezes essas coisas ficaram caladas em meu pequeno peito infantil. Enfim, uma deficiência como a que tive sei que marca tremendamente. Provavelmente, deva ter marcas dessa deficiência até hoje. Isso foi até os 9 anos, quando minha mãe nos levou, a mim e a minha irmã, para os EUA para fazer uma cirurgia. Eu fiquei com uma perna mais fina do que a outra, mas voltei andando, mancando muito pouco, algo quase imperceptível.

AME – E a adolescência, como foi?

Boris – Após a cirurgia, aos nove anos de idade, começou, então, uma segunda etapa na minha vida, quando entrei na pré-adolescência. Foi uma espécie de ganhar o tempo perdido. Fiquei extremamente ansioso, rebelde, tive uma explosão de energia, vitalidade, vigor, como que tentando fazer tudo o que não tinha feito. Eu sentia que estava fazendo tudo o que não fazia, sentia o gosto das brincadeiras, queria curtir aquilo intensamente. Naquele momento, não gostava de mostrar minha perna, não gostava de me mostrar, as pessoas reparavam, olhavam, mas, fora isso, eu passei a me considerar normal, porque, embora mancando, passei a fazer tudo o que as demais pessoas faziam, inclusive jogar futebol. O problema, pelo menos aparentemente, estava superado. Mas sei que deixa marcas. Na medida em que ouço uma história, vejo o tema numa peça de teatro, ou em filme, ou, ainda, em campanhas de vacinação, tenho uma rememoração muito pesada. Uma doença dessas marca profundamente uma criança. Eu ainda tenho o consolo de ter me saído bem. Com 59 anos, me considero normal, mas essa doença marca muito psicologicamente.

AME – E você conseguiu superar essas marcas?

Boris – Eu não sei. Aparentemente sim, mas acho que são marcas indeléveis, não têm solução. Nunca consultei um terapeuta, um especialista. Inclusive, os tratamentos eram altamente traumatizantes, algumas vezes, imobilizantes. Engessavam as crianças, colocavam compressas muito quentes, minha mãe procurava fazer tudo que aparecia. Eram verdadeiras torturas e nos tiravam o tempo de convívio com outras crianças, tempo de brincadeira. Eu vejo um conjunto de coisas. Não são facilmente solucionáveis. Certamente minha alma está marcada, e estou contando aqui somente o que está em minha memória. Por isso quando vejo uma criança deficiente, meu sentimento é de solidariedade porque sei exatamente o que aquela criança sente, porque eu senti na própria carne.

AME – E seu lado profissional, como se desenvolveu?

Boris – Eu fiz curso de Direito, até o último ano, mas não cheguei a me formar, pois não fui buscar meu diploma. Acabei optando por atuar na área jornalística. Desde os 15 anos eu trabalho em rádio. Eu uni meu gosto por rádio ao gosto por esporte. Como não podia andar, era um grande ouvinte de rádio, admirava aquele milagre da transmissão da voz. Quando voltei dos EUA, em 1950, estava iniciando a TV Tupi e acabei me interessando muito. Trabalhei também em jornal, fui editor-chefe da Folha de São Paulo, por oito anos. Agora, estou vivendo há 12 anos uma experiência intensa com televisão.

AME – Tendo sentido na própria pele as dificuldades de um portador de deficiência, como você vê a relação da sociedade hoje com quem possui deficiência?

Boris – A visão que a sociedade tem hoje do deficiente é muito melhor do que antes. Havia dois fatores antes: a exclusão aliada a um sentimento de pena. Ou havia piedade ou pena, ou eram as duas coisas. Eu acho que hoje existe basicamente na sociedade um sentido de, primeiro, integração e, depois, criação de oportunidades. Eu me lembro quando começaram a surgir as primeiras associações voltadas para o deficiente. Já era um menino crescido, tinha 11 ou 12 anos, e me lembro disso. Eram grandes novidades no Brasil. Veio a vacinação, a maneira de encarar a doença e os deficientes mudou muito, até porque o esporte tornou os deficientes charmosos. Hoje um menino que usa bengala, alguém que sofreu um acidente de moto, hoje posa como alguém que quebrou uma perna. Quem tem deficiência nos dentes, por exemplo, hoje, já não é incômodo, pois as crianças têm até prazer em usar aparelho para corrigir a dentição. Os aparelhos de correção são bonitos, tem um certo charme, pode parecer uma bobagem, mas esse conjunto de coisas alterou comportamentos. Hoje não vejo tanta piedade, vejo muito mais que as deficiências ganharam os meios de comunicação, há campanhas em todo o Brasil. Toda mobilização comunitária que foi acontecendo, toda cidadania que vai se aperfeiçoando tem propiciado uma visão diferente. Se bem que ainda ache que pouco se concretiza em São Paulo, em termos de calçada rebaixada, escadaria que possibilite um acesso mais fácil, mas isso vai se amalgamando, vai se tornando uma conquista. Um conceito que eu sempre procuro inocular nas pessoas é o deficiente não precisa de piedade, e sim de oportunidade. Há associações que conseguem fazer que deficientes alcancem o máximo de seu rendimento.

AME – Profissionalmente, em algum momento, houve alguma dificuldade em função de sua deficiência?

Boris – Não, profissionalmente, não. Claro, eu não escolhi ser atleta. Claro que tenho limitações físicas, posso ser um atleta amador, com relativa qualidade, mas profissionalmente não, não tive nenhuma dificuldade. Há várias pessoas portadoras de deficiência que trabalham comigo e também não acho que elas sofrem piedade nem exclusão. A gente até brinca com as deficiências. Não vejo nenhum tipo de discriminação nem essa coisa da piedade. Eu acho que a piedade é um sentimento discutível. A piedade acaba sendo um instrumento de rebaixamento de quem é alvo dessa piedade, de colocação num nível de incapacidade, de incompetência. A piedade é um instrumento de exclusão. Eu acho que isso está desaparecendo. Está se formando um conceito diferente. Profissionalmente eu nunca me senti tratado

diferente, discriminado.

AME – E qual é sua opinião sobre a pessoa portadora de deficiência no mercado de trabalho?

Boris – Existe uma legislação e acho que não tem sido cumprida, mas eu não vejo discriminação. Há pessoas com deficiência que são extremamente competentes. Talvez haja um certo preconceito em relação a determinadas deficiências, como a visual, por exemplo. Mas outros tipos de deficiências físicas, auditivas, por exemplo, as pessoas são tratadas normalmente. Acho que há também uma certa barreira em relação ao deficiente mental, pelas limitações, mas essas pessoas fazem muito bem suas tarefas, dentro de seus limites. As pessoas deficientes se vêm com um grande desafio pela frente e são extremamente competentes e dedicadas. Isso, porque o trabalho é prazeroso, como desafio e como exercício de vida. Essas pessoas são entusiasmadas, aplicadas no trabalho, são altamente confiáveis, até porque são curtidas, peneiradas pelo sofrimento, embora muitas vezes não aparentem, pois têm um comportamento alegre. Quem admite deficientes em sua empresa, não está fazendo generosidade nenhuma, está fazendo muito bem para sua empresa, pois quando eles têm chance são bons profissionais.

AME – Você tornou conhecida a exclamação isto é uma vergonha. Na área da deficiência, o que você considera hoje uma vergonha?

Boris – Eu não queria rotular dessa forma. Não sou um estudioso da área, sou apenas um observador. Não tenho me aprofundado, talvez até por uma falha minha em verificar o que falta. Não tenho uma visão de que algo nessa área seja uma vergonha. Eu tenho uma visão otimista neste campo. Acho que as coisas têm melhorado, com todas as dificuldades. As pessoas têm se unido. Há 20 anos, eu não imaginava que haveria uma competição entre portadores de deficiência, como as Paraolimpíadas. Nunca! São coisas que provocam uma fileira de bons acontecimentos, vão conquistando cidadania.

AME – Qual é sua mensagem para os portadores de deficiência que ainda não alcançaram esse seu otimismo?

Boris – Eu sou um otimista. A melhor mensagem que eu posso transmitir é a de esperança, mas não aquela esperança chorosa, desesperançada. É uma esperança real e alegre. Uma esperança incentivadora para as pessoas não se tornarem passivas, continuarem procurando se superar. Nessa comunidade, eu não poderia esquecer uma participação extremamente importante das mães e pais do deficiente, que têm uma tarefa de enfrentar a situação de maneira heróica, esperançosa e alegre. Sempre nas campanhas de vacinações eu tenho contado sobre minha deficiência, sempre digo que pai e mãe que não levam o filho para vacinar são criminosos. Parece apavorante, mas é para apavorar mesmo. Pais que negligenciam e não levam os filhos para vacinar são criminosos, mesmo! Agora, quem foi atingido tem que procurar reagir da melhor maneira possível, não se deprimir, não se estressar, mas elevar o máximo possível seu entusiasmo. Os pais devem transformar seus filhos em seres humanos prestantes, com amor e incentivo.

AME – E sua irmã gêmea, como vive hoje?

Boris – Minha irmã é secretária, tem netos e está muito bem, igual a mim. Na minha impressão, acho que a pólio a atingiu mais, como mulher. Ela foi mais atingida, embora as deficiências sejam parecidas, porque na adolescência eu usava calça comprida e ela, com vestido, exibia muito mais as marcas da pólio do que eu. Mas ela casou-se e é feliz. Se ela não fosse deficiente, ela teria uma vida muito parecida com a que tem hoje.

Fonte: AME 


Responses

  1. […] Sinceramente até ler esse post no site Turismo Adaptado, eu não sabia que um dos maiores jornalistas da televisão brasileira era deficiente. Achei super […]


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