Publicado por: Ricardo Shimosakai | 29/12/2012

Documentário da BBC: Deaf Teens, Hearing World (Adolescentes surdos, mundo ouvinte)


Deaf Teens, Hearing World

A BBC lançou recentemente o documentário Deaf Teens, HearingWorld (Adolescentes surdos, mundo ouvinte), sobre a vida de cinco adolescentes surdos e seu cotidiano no mundo dos ouvintes. O documentário mostra a interessante característica comum no mundo dos surdos – e desconhecida pela maioria das pessoas – acerca do desejo de alguns surdos de não ouvir, mesmo de pudessem. No documentário, Sara e Aser são surdos que mesmo que tivessem a opção de ouvir diriam não, sendo eles surdos profundos e orgulhosos de sua cultura surda. Meghan, de 19 anos, quer ouvir a qualquer custo e fará uma operação de implante coclear.  Jake e Adam são gêmeos idênticos, Adam é ouvinte, mas Jake é profundamente surdo. Christianah está entrando em seu último ano na sua escola especial para surdos. O filme destaca as dificuldades que os adolescentes surdos enfrentam quando entram no complexo mundo de ouvintes pela primeira vez, proporcionando uma experiência totalmente imersiva.

Achei interessante colocar a entrevista com a diretora do filme, Claire Braden, para a gente ficar com gostinho na boca de ver o documentário. Claire Braden trabalha para TV há oito anos, mas só agora passou a filmar a vida real de pessoas. Depois de trabalhar em programas sobre crianças em tratamento, ela trabalhou em séries médicas como “24 horas” do canal A&E. Deaf Teens, Hearing World é o primeiro programa que ela dirige.

De onde veio a ideia para o documentário Deaf Teens, Hearing World?
Meu pai está ficando surdo e ele me disse que isso automaticamente faz as pessoas pensarem que você é meio idiota, então eu fiquei imaginando se isso não seria ainda pior para jovens surdos. Uma vez que eu tinha passado o dia em uma escola de surdos, e eu percebi que eles tinham muito a dizer e que havia muito a aprender sobre suas experiências de ser surdo e sobre a comunidade surda. Eu queria saber como era ser um adolescente surdo – as pessoas surdas só ficam com outras pessoas surdas? Como é ir para a universidade sem poder ouvir nenhum dos seu potenciais amigos? Como é sair de uma escola só de surdos para um mundo de ouvintes?

O filme apresenta vários ‘tipos’ de pessoas surdas – sinalizadores (usam a língua de sinais), usuários de implante coclear e assim por diante. Você ficou surpresa em saber dessa variedade dentro do mundo surdo?
Fiquei espantada como dentro de uma comunidade poderia haver uma variedade tão grande de pessoas, tantos pontos de vista diferentes e ainda um grupo coeso de pessoas. Duas pessoas surdas podem ter pontos de vista muito diferentes sobre, por exemplo, implantes cocleares – um pode ter um implante coclear e a outra pode ser firmemente contra os implantes cocleares, acreditando que eles enfraqueçam a força da comunidade surda, mas isso não vai impedí-los de serem amigos.

Como você lidou com a comunicação durante as filmagens?
De diversas maneiras. Christianah e Meghan falavam, então eu só conversava com elas normalmente. Elas são mestres em leitura labial,  e enquanto eu me lembrei de tirar a câmera do meu rosto antes de falar, olhar para elas e não murmurar, nos comunicamos muito bem! Jake e eu pudemos conversar até certo ponto com a ajuda de sua família e em uma ocasião foi utilizado um intérprete. Com Sara e Asher, que são usuários da BSL (Língua de Sinais Britânica), eu tinha um intérprete para quase todas as filmagens com eles.

Sua percepção acerca das pessoas surdas mudou a partir deste filme?
Eu fiquei impressionada em saber o quão importante é a identidade surda – a maioria dos jovens surdos parecem encontrar consolo em serem como os outros surdos e parece maravilhoso fazerem parte do “clube”. A cultura surda é muito atraente, é uma cultura amigável, acolhedora, tátil, com uma língua bonita no coração e muitas pessoas brilhantes que só vêem o mundo de uma maneira ligeiramente diferente de mim. Estou bastante certa de que é este “clube” ou cultura que fazem com que a maioria das pessoas surdas com quem falei diga que não se tornaria ouvinte, mesmo se pudesse.

O que você aprendeu sobre as famílias de surdos?
Acho que há uma enorme diferença entre ser surdo filho de pais surdos ou de pais ouvintes. Eu fiquei surpresa ao descobrir que 90% das crianças surdas nascem de pais ouvintes. Fiquei realmente impressionada pela forma como os pais de um dos meninos do filme, o Jake, que são ouvintes, conseguiram aprender a língua de sinais e tinham feito um considerado esforço para conectar Jake com outros jovens surdos. Deve ser um campo minado para pais ouvintes iniciantes se comunicar com seu filho, sem negar sua identidade surda.

Você pegou esses jovens em uma determinada fase das suas vidas – passando por grandes mudanças, saindo de casa, virando adultos – como você acha que ser surdo muda a experiência desses indivíduos?
Todos os participantes tiveram uma experiência diferente de inserção no grande mundo ouvinte. Eu acho que sair de uma escola de surdos ou de um lugar onde você tem muito apoio aos surdos para uma grande universidade convencional é bem difícil. Como você faz amigos se você tem um intérprete no seu calcanhar? É incrivelmente difícil, como Sara descobriu quando ela partiu para universidade. Eu acho que todos os participantes do filme são realmente inspiradores, acho que todos eles no fim vão ser bem-sucedidos mesmo que isso não aconteça de imediato.

Fonte: surdo mundo


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