Publicado por: Ricardo Shimosakai | 29/12/2014

Acessibilidade e planejamento são fundamentais para turista com deficiência física


Kátia Fonseca na Ponte dos Incas, próximo da fronteira ente Chile e ArgentinaKátia Fonseca na Ponte dos Incas, próximo da fronteira ente Chile e Argentina

Quando alguém resolve fazer uma viagem de turismo, precisa pensar em apenas três providências básicas: escolher o destino, comprar as passagens e fazer as malas. Depois, veem os detalhes. O hotel, por exemplo: geralmente, se escolhe levando em conta a estrutura do lugar e o preço. No entanto, se esse alguém tem uma deficiência — seja ela física ou sensorial — o caminho é bem mais complicado.

Para fazer uma viagem de turismo, a pessoa com deficiência, logo de cara, precisa pensar em muitas “providências básicas” e quase todas elas levam em conta a acessibilidade, a começar pelo destino a ser escolhido. Para uma cadeirante — como no meu caso — o planejamento de uma viagem de férias vira uma verdadeira odisseia! Aqui vale um parênteses para lembrar de um caso ocorrido recentemente e que comprova a dificuldade — e quase impossibilidade — de uma pessoa cadeirante viajar neste nosso País. Foi notícia em toda a mídia e redes sociais o recente caso de Katya Hemelrijk da Silva, que precisou se arrastar pela escada para poder embarcar em um avião da GOL. Ela estava em Foz do Iguaçu e os equipamentos de auxílio ao embarque de pessoas com mobilidade reduzida — ambulift, por exemplo — não estavam disponíveis. Aliás, isto acontece de forma recorrente: o aeroporto ou as companhias aéreas possuem tecnologia que permite a acessibilidade, mas não funciona (ou está em manutenção).

Voltando à nossa saga turística, passei por isso há poucos meses, quando saí de férias e resolvi ir ao Chile e Argentina. Meus destinos, portanto, seriam Santiago e Mendoza. Na primeira, me interessava os pontos turísticos repletos de lembranças históricas de nossa querida América Latina e sua gastronomia à base de frutos do mar. Já na cidade argentina, localizada em região predominantemente vinicultora, meu alvo eram as tão famosas vinícolas.

Hospedagem

Fui a esta viagem com mais três amigos (um casal e uma amiga). Apenas eu tenho dificuldade de locomoção e, por isso, uso cadeira de rodas. Portanto, ficou resolvido que eu mesma ficaria responsável por encontrar o local de hospedagem já que seria preciso se atentar às minhas necessidades específicas. Começa então a saga: iniciei procurando pela internet, em sites que oferecem pacotes turísticos ou passagens e hospedagens avulsas. É a maior dificuldade encontrar a informação sobre a acessibilidade de hotéis ou apartamentos. Quando encontrava algo interessante, abria o site e, então, apareciam várias fotos magníficas e várias informações, mas nada que contemplasse minha necessidade de saber se o local era ou não acessível.

Para os que não têm tanta intimidade com o universo da pessoa com deficiência, informo que se entende por acessibilidade arquitetônica, basicamente, o seguinte: ausência de degraus, portas largas o suficiente para que possa passar uma cadeira de rodas e existência de rampas em locais com desnível. Caso não existam condições ideais de acessibilidade, é preciso compensar isso com a tecnologia, como no caso dos aeroportos, que devem ter equipamentos adequados para o embarque e desembarque das pessoas com deficiência física.

Então, em minha busca pelo local de hospedagem, eu precisei escolher dois ou três lugares e telefonar para pedir mais informações. Temos aí mais dois problemas: o custo da ligação e — no caso desta viagem a que estou me referindo — a língua. Eu apenas “arranho” no castelhano e, assim, como me fazer entender para pedir informações tão específicas como largura de porta ou existência de escada? Foi dureza! Algumas vezes desisti.

E já houve casos de viagens que fiz que, mesmo tendo pedido informações prévias, ao chegar no local encontrei muitas barreiras. Por exemplo: eu perguntava se havia escadas no hotel e me diziam que não. “É tudo plano”, me informavam. Mas, lá chegando, deparei com cinco degraus na entrada do hotel. “Mas vocês não me disseram que era plano?”, questionei. “Sim, dentro do hotel é tudo plano. Você não perguntou sobre a entrada.”. Já “escolada” no assunto, desta vez, em Santiago e Mendoza, fiz várias ligações, consegui me fazer entender e acabou dando tudo certo.

A jornalista Kátia Fonseca durante férias no Chile e na ArgentinaA jornalista Kátia Fonseca durante férias no Chile e na Argentina

Transporte

O maior problema em relação ao transporte terrestre é conseguir veículos em que caibam a cadeira de rodas. Não se pode simplesmente chamar um táxi. Antes, é preciso perguntar se o porta-malas é suficientemente grande para caber a cadeira. No translado entre aeroportos, ou do aeroporto até o hotel, também é preciso avisar com antecedência, pois, muitas vezes, as vans — apesar de serem grandes — vão lotadas de gente e de malas e a cadeira de rodas acaba não tendo espaço.

Em outra viagem, quando visitei a capital argentina, Buenos Aires, enfrentei, ainda, a má vontade dos motoristas de táxi. Não posso generalizar e dizer que todos os motoristas sejam assim. Talvez eu não tenha tido sorte. Mas era muito comum o táxi não parar (quando tentávamos pegar na rua), ou, mesmo tendo porta-malas grande, se recusar a levar. E, muitas vezes, ao parar, o motorista perguntava: “— A cadeira também vai?”. Oras bolas! Nesta viagem a Santiago e Mendoza, não tive problemas com os taxistas. Todos foram muito gentis e tiveram muito boa vontade.

Quanto ao transporte, vale a pena lembrar que as companhias aéreas — de novo elas! — são muito descuidadas — às vezes até perigosas — quanto ao cuidado com as cadeiras de rodas. Se a cadeira for motorizada, então, nem se fala! Já soube de casos em que o passageiro foi para um destino e sua cadeira de rodas para outro. Sim, sei que isso também acontece com bagagens. Mas é preciso admitir que, quando se trata de uma cadeira de rodas, única forma de uma pessoa poder se locomover, o estrago é bem maior do que o desvio de uma mala, não é mesmo?

Cadeiras de rodas com o braço quebrado, sem uma das rodinhas da frente, acondicionadas de maneiras estapafúrdias (de cabeça para baixo, por exemplo), horas e horas para encontrar a cadeira e permitir que o passageiro cadeirante deixe a aeronave — entre outros — são os problemas mais comuns (a gente já nem estranha mais). E para esses e outros problemas mais graves (como o envio da cadeira para outro destino), o único retorno que recebemos das companhias aéreas é: “Sentimos muito pelo transtorno. Isto não voltará a acontecer”. Sim, até a próxima viagem! Nunca conheci um caso sequer de ressarcimento financeiro.

Fonte: Correio Popular


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