Publicado por: Ricardo Shimosakai | 05/06/2015

Carta aberta de uma surda aos aeroportos brasileiros


Paula Pfeifer, surda oralizada usuária de implante coclear, disse que nunca conseguiu entender uma palavra dita pelos malditos alto-falantesPaula Pfeifer, surda oralizada usuária de implante coclear, disse que nunca conseguiu entender uma palavra dita pelos malditos alto-falantes

Eu estava sentada no aeroporto de Brasília quando dois funcionários de uma companhia aérea cutucaram um senhor ao meu lado querendo saber se por acaso ele era o Sr. John Alguma Coisa. Achei curioso e fiquei observando. Ele respondeu que não, e os funcionários explicaram que já haviam chamado este nome várias vezes no alto-falante, tanto em inglês quanto em português. Foi aí que pensei: “Não passou pela cabeça deles que essa pessoa possa ser surda?

Certamente, não passou. Os aeroportos brasileiros acreditam piamente que todos os surdos usam Língua de Sinais e, pior, acho que acreditam inclusive que surdos não viajam. Só isso pode explicar tamanho despreparo.

Vamos começar do básico. Desde os meus 20 anos encaro aeroportos sozinha. Sou surda oralizada, e durante muitos anos fui usuária de aparelhos auditivos. Hoje, tenho um implante coclear no ouvido direito e sou capaz de escutar muito bem com ele, mas jamais vou esquecer de todos os perrengues que já passei dentro de aeroportos. Escrevo essa carta em nome dos milhões de surdos que transitam diariamente pelos  aeroportos brasileiros e têm os mesmos anseios que eu tinha (e às vezes ainda tenho).

Na primeira vez em que estive num vôo internacional sozinha, avisei a companhia aérea sobre a minha surdez – eles têm essa opção quando compramos a passagem. Fiz isso porque não era capaz de entender os avisos que são dados no avião e também por ser a minha primeira vez e estar um pouco apavorada. Aliás, vocês, OUVINTES, já imaginaram o que é viajar não ouvindo ou ouvindo mal? O ‘atendimento preferencial’ que tive foi ser colocada numa fileira da aeronave junto com as mães com bebês de colo. Nenhuma comissária perguntou se eu precisava de alguma coisa por estar ali ouvindo mal como eu ouvia naquela época. Nenhuma comissária veio me avisar sobre turbulência, pouso ou decolagem. Apenas fui colocada ali e esquecida. Se soubesse que era assim, não teria perdido meu tempo avisando sobre minha deficiência auditiva.

Nenhum projeto arquitetônico de aeroporto leva em conta a questão acústica. Até mesmo os ouvintes reclamam da dificuldade que sentem para entender o que é dito pelos alto-falantes em determinados aeroportos. O Galeão é uma tragédia nesse sentido, enquanto o Santos Dumont, por exemplo, é ótimo. Com tanto dinheiro gasto em reformas milionárias, custava dar uma atenção especial a esta questão? Aeroportos e aviões são tensos para pessoas que não ouvem ou ouvem mal por uma única razão: o som – inclua aí a falta dele e a sua má qualidade! Hoje consigo entender o que é dito nos aeroportos com boa acústica por causa do meu implante coclear, mas nos anos em que usei aparelhos auditivos para viajar não era capaz desta proeza. E tudo o que eu mais queria era apoio visual para compensar minha falta de audição. 

Nos anos em que usei aparelhos auditivos, nunca consegui entender uma palavra dita pelos malditos alto-falantes. Ficava vidrada nas TV’s que anunciam chegadas e partidas feito uma louca, e não foram poucas as vezes em que precisei sair correndo de lá para cá por mudança de portão. E os vôos perdidos por causa disso? Um surdo confia nos avisos da TV e não está nem aí para anúncios de voz. Custa sincronizarem a mudança de portão de embarque entre alto-falantes e TV? Tanto custa, que isso não é feito. Semana passada, esperando um vôo para Belém no aeroporto de Confins, ouvi o alto-falante avisar sobre o meu portão de embarque (meu implante coclear me permite isso) mas a informação não foi colocada no painel de vôos pelos próximos 15 minutos! Se eu ainda usasse aparelhos auditivos, poderia ter perdido o vôo porque os aeroportos brasileiros não dão a mínima para a acessibilidade das pessoas que não ouvem ou ouvem mal.

Desde que fiz implante coclear preciso passar pela revista especial, já que não posso passar pelo detector de metais para não correr o risco de desprogramar meu IC. Devo dar crédito para o fato de que 90% dos  aeroportos que já fui têm o adesivo “Proibida passagem de portadores de implante coclear e marcapasso” nos detectores. Já fui revistada por um número grande de funcionárias, e já passei por momentos bizarros e ouvi pérolas nesses momentos. Tais como ‘Que negócio é esse? Quero ver pra ver se é verdade‘, ‘Mostra isso aí!’, ‘Por que a senhora está fazendo essa revista se a senhora é normal?‘. Mas o pior foi a minha primeira revista, no aeroporto de Porto Alegre, em janeiro de 2014. A funcionária colocou as luvas de plástico com um olhar assustador, me dizendo num tom de voz terrorista: “E aí, quer começar por trás, pela pior parte?“. Naquele momento fiquei achando que a revista seria tal qual uma revista íntima de presídio. Ela percebeu meu semblante apavorado e começou a rir da minha cara e dizer “Hahaha, tô brincando filha!” Desagradável e desnecessário, para dizer o mínimo. Ao que parece, os adesivos foram colocados nos detectores mas a maioria dos funcionários não foi treinada para lidar com pessoas que têm um implante coclear. E o número de implantados só cresce. Hoje, já sou vacinada contra atendimento sem noção e não deixo barato. Mas ainda acontece muito de me peitarem no detector como se eu estivesse mentindo sobre ter um IC. Me sinto agredida nesses momentos.

Um fato irônico: o aeroporto de Santa Maria (RS) possui um telefone especial TDD (a maior falácia dinossáurica já inventada em prol da acessibilidade dos que não ouvem) mas não possui o adesivo sobre marcapasso e implante coclear. As vezes em que peguei vôos lá, ao informar que tinha um IC, os funcionários me olhavam com cara de ‘que diabo é isso‘, me mandavam passar por fora do detector e…não me revistavam!

Voltando ao fato que me fez sentir vontade de escrever essa carta, fica a pergunta: com tanta tecnologia simples e acessível hoje, por que não usá-la? No caso em questão, todos os passageiros informam seus números de telefone ao comprar uma passagem. Os funcionários poderiam ter lhe enviado um SMS em vez de saírem cutucando meio aeroporto em busca do passageiro que não respondeu aos chamados do alto-falante. TÃO SIMPLES!

Os banheiros dos aeroportos poderiam ter uma pequena televisão com os avisos de chegadas e partidas. Já me aconteceu de estar apertada numa fila enorme do banheiro feminino quando houve troca de portão de embarque e cancelamento de vôo e eu, logicamente, não ouvi o anúncio do alto-falante avisando.

Surdos usuários de aparelhos auditivos e implantes cocleares adorariam ver nos aeroportos brasileiros uma tecnologia chamada Hearing Loop (o aro de indução magnética). A grande maioria dos aparelhos auditivos e IC’s disponíveis hoje possui a opção “T-coil“, que transmite o som diretamente para estes dispositivos quando há um Hearing Loop instalado, ajudando sobremaneira na inteligibilidade da fala humana. É simples e é uma realidade num grande número de aeroportos ao redor do mundo. Por que não aqui? Por que no Brasil essa tecnologia é ignorada? Para saber mais sobre o aro de indução magnética, clique aqui.

Surdos oralizados – ou não – sofrem com o despreparo dos funcionários no quesito ‘como-lidar-com-um-passageiro-com-deficiência’. As vezes em que não entendi algo que me foi dito no checkin ou despacho de bagagem recebi um olhar de desprezo seguido por um tom de voz ridiculamente alto. Acho que cursos de capacitação que ensinem a lidar com todo e qualquer tipo de passageiro que possui alguma deficiência são uma necessidade básica nos aeroportos.

Alguns gestores poderão alegar ‘custos elevados’ para não darem a devida atenção à acessibilidade TOTAL – aquela que dá as ferramentas necessárias a TODAS as pessoas com deficiência para que sejam capazes de se virar sozinhas aonde quer que seja – no caso, nos aeroportos. Posso garantir que o custo da discriminação é muito mais alto. Quem convive com uma deficiência, como eu, já pensou que se um grande gestor/diretor/presidente do setor aeroviário ficasse surdo de repente, as coisas seriam diferentes. Essa pessoa se sensibilizaria com nossas necessidades ao sentir na pele a emoção de ficar como uma barata tonta perdida e abandonada dentro de um aeroporto.

E para não dizer que não falei dos surdos que usam apenas a LIBRAS para se comunicar: até parece que algum aeroporto possui um intérprete de LIBRAS à disposição 24 horas por dia, 7 dias por semana… Acham que está de bom tamanho aquele videozinho da Infraero com uma intérprete que às vezes passa na TV. Como se ele fosse útil para alguma coisa.

É muito triste para um surdo que quer viajar em paz se ver envolvido nessa série de perrengues desagradáveis por pura falta de acessibilidade. Mas não pensem que paramos por aqui pois a saga continua! Ao entrar no avião, a falta de acessibilidade é ainda mais sufocante. Quando o avião tem TV’s para entretenimento dos passageiros, nenhum programa possui legenda, pois eles pensam que todas as pessoas do mundo são capazes de colocar um fone de ouvido e…ouvir! Os avisos de segurança e anúncios da cabine nunca são legendados – minto, já vi aviso de segurança legendado numa companhia aérea brasileira sim. Irritante pensar que avisos e anúncios são repetidos no alto-falante em várias línguas, mas legendar que é bom, aí, não dá, impossível. Como se explica isso? É pura má vontade ou alguma forma doentia de sadismo com os passageiros que não ouvem e ouvem mal?

Por fim, eu continuo sonhando com aeroportos acessíveis para todos aqueles que não ouvem. Nós merecemos. Se esta carta chegar ao conhecimento de alguma autoridade ligada aos aeroportos brasileiros, eu imploro: mudem essa realidade. É tão simples que chega a ser ridículo que ainda tenhamos que passar por certas situações. Acessibilidade não é um favor. É um direito. E se você hoje não precisa dela, não esqueça que nunca se sabe o dia de amanhã – e amanhã você pode precisar dela.

Fonte: Crônicas da Surdez


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