Publicado por: Ricardo Shimosakai | 08/10/2015

Medalhista do Parapan volta à realidade em Belo Horizonte e enfrenta os obstáculos de sempre


Escadaria da Estação São Gabriel do Metrô é apenas um dos problemas que tenista enfrenta no dia a diaEscadaria da Estação São Gabriel do Metrô é apenas um dos problemas que tenista enfrenta no dia a dia

Dono de duas medalhas nos Jogos Parapan-Americanos de Toronto, no início do mês, um dos 20 melhores tenistas sobre cadeira de rodas do mundo e vencedor de 12 títulos em três países diferentes, o mineiro Daniel Rodrigues encara fora das quadras adversários tão ou mais duros do que com a raquete nas mãos. Falta de patrocínio, de prótese adequada e de acessibilidade nos transportes públicos são um desafio extra superado todos os dias pelo atleta, de 28 anos, nascido em Santa Luzia e provável representante do país na Paralimpíada Rio’2016.

Daniel nasceu com malformação na perna direita – 20cm menor do que a esquerda – e decidiu amputá-la em 2013, depois que uma cirurgia malsucedida paralisou seu joelho direito. Desde então, usa uma prótese cedida pelo SUS, que não é resistente o suficiente para o esporte. “Ela já quebrou quatro vezes, uma delas no meio da rua. Tive de pedir ajuda. Procurei saber quanto custa a prótese que atletas estrangeiros usam, e a mais simples é cerca de R$ 120 mil. Não tenho dinheiro nem para pagar o hotel no próximo campeonato, imagina só…”, comenta.

Dois dias depois de voltar do Canadá com uma medalha de bronze (simples) e outra de prata (duplas) no pescoço, o tenista retomou a rotina na sexta-feira. Acompanhado pela reportagem do Estado de Minas, cumpriu o trajeto entre a casa dos pais, no Bairro São Geraldo, em Santa Luzia, e a quadra onde treina quatro vezes por semana, no Belvedere, Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Até 2012, fazia o caminho usando exclusivamente o transporte público, mas, depois de ser assaltado no ônibus ao voltar para casa, reuniu as economias e comprou um carro. Economizou tempo, já que a viagem durava até três horas – só para ida. Hoje em dia, usa a combinação ônibus-metrô-ônibus só quando necessário.

Ao contrário do que encontra em outros países pelo mundo, Daniel não tem facilidades quando sai à rua. “Em Londres, Canadá, Austrália, as calçadas são regulares, não têm degraus para atravessar a pista; o transporte público é acessível. Aqui, as calçadas e as ruas têm buracos, são desniveladas. Aí, preciso jogar a prótese para a frente para não tropeçar, já que só consigo dar o passo se ela estiver completamente reta. À vezes, me desequilibro”, explica o tenista, que é vizinho da meio de rede Fabiana, bicampeã olímpica de vôlei pelo Brasil e capitã da Seleção.

Ônibus até a Estação São Gabriel é quase sempre cheio. Quando se senta, a distância entre bancos é pequena, já que a prótese não dobra mais do que 90ºÔnibus até a Estação São Gabriel é quase sempre cheio. Quando se senta, a distância entre bancos é pequena, já que a prótese não dobra mais do que 90º

DESCASO NO METRÔ

Os degraus também são um desafio, seja meio-fio ou o de acesso às estações do metrô. Dentro do trem, outro incômodo: geralmente viaja em pé, porque os lugares demarcados não são respeitados. “Muitos fingem que estão dormindo, outros olham a paisagem. Para mim, ficar em pé por muito tempo é desgastante, pois a dor aumenta e passo a sentir o que chamam de membro fantasma, com muito formigamento no pé que foi amputado”, explica.

Daniel usou os lances de escada para entrar na Estação São Gabriel e sair da Central. Segundo a assessoria de imprensa da Companhia de Trens Urbanos, a segunda tem elevadores disponíveis. Na primeira, ainda está em estudo a possibilidade de obras de acessibilidade.

Dinheiro contado. E ainda falta

Em busca da vaga olímpica no Rio’2016, Daniel Rodrigues vive hoje com o salário do Bolsa-Atleta de R$ 1.850. Atualmente, é o 18º melhor tenista do mundo, mas corre o risco de ficar sem vaga direta para os Jogos por falta de dinheiro para viagens. Ele precisa defender os pontos para se manter no topo e só vai viajar para os Estados Unidos, na semana que vem, graças ao treinador Leonardo Oliveira, o Leo Butija, que lhe emprestou alguns dólares.

A Confederação Brasileira de Tênis (CBT) paga apenas a passagem, e um patrocinador disponibiliza os materiais esportivos. “Ainda faltam US$ 190 para pagar um hotel do primeiro torneio, além da hospedagem completa em outra cidade. O Bolsa-Atleta de 2015 ainda não saiu e não tem previsão, estou sem patrocínio desde 2012, mas preciso pontuar”, lamenta.

Depois de mais um longo trecho de ônibus, Daniel chega à quadra de treino, no Bairro BelvedereDepois de mais um longo trecho de ônibus, Daniel chega à quadra de treino, no Bairro Belvedere

Daniel é um dos três tenistas mineiros com chances reais de se classificar para o Rio’2016. Os outros são Rafael Medeiros, de 25 anos (25º do mundo), e Meyricol Duval, de 20, a 30 pontos de se tornar a segunda melhor brasileira do ranking feminino. O trio é treinado por Leo Butija, que não cobra para dar quatro horas de atividades por dia para cadeirantes.

Apesar das dificuldades, Daniel tira lições. “Quando estou em quadra, esqueço as dificuldades, a falta de dinheiro… No esporte, a gente aprende a evoluir com as derrotas. Olho para trás e vejo os países que conheci, a chance de representar o Brasil, tudo que superei, as dificudades em família, e só penso em continuar evoluindo.”

Fonte: Mais Esportes


Responses

  1. Só sendo atleta pra enfrentar tantos obstáculos no dia a dia sem acessibilidade não? E mesmo assim, como é difícil!


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