Publicado por: Ricardo Shimosakai | 22/10/2015

Mãe critica postura da equipe responsável por avião na abordagem ao filho autista de 10 anos


Silvia lamenta que o episódio com Otávio transmita uma imagem negativa da pessoa com deficiênciaSilvia lamenta que o episódio com Otávio transmita uma imagem negativa da pessoa com deficiência

Otávio adora andar de avião. Fica sempre eufórico ao entrar na aeronave. Mas ele não suporta, por enquanto, usar o cinto de segurança desde o início, antes da decolagem. O garoto, de 10 anos, é autista. A última viagem, no sábado, não foi como as outras. Em voo da Azul, de Navegantes (SC) a Porto Alegre, a tripulação se recusou a dar início ao taxiamento enquanto ele não estivesse sentado e com o cinto afivelado.

Os pais tentaram negociar, já haviam voado com a companhia outras três vezes, e sabiam que o menino colocaria o cinto no momento da decolagem e do pouso porque estava condicionado a isso. O tempo de viagem, previsto para 50 minutos, aumentou para quase duas horas, depois de muito estresse e bate-boca entre a família do garoto e a tripulação, que acabou aceitando o compromisso do pai de que o cinto seria usado quando o avião estivesse subindo.

– Ele colocou o cinto na hora, passou o voo brincando, rindo. Foi desnecessário e fica como um exemplo negativo de que uma pessoa portadora de necessidades é um estorvo na sociedade. Ele é alegre, mas num momento, quando estava sentadinho, as lágrimas escorriam – diz a mãe, a nutricionista Silvia Sperling Canabarro.

O uso do cinto está sendo trabalhado com Otávio há dois anos. Para Douglas Norte, responsável pelo acompanhamento terapêutico do garoto, o incidente pode ter prejudicado o desenvolvimento dele nessa atividade:

– A comissária chegou e começou a obrigar. Isso pode ter se tornado punitivo em vez de um reforço. Provavelmente, a gente pode ter dado um passo atrás na terapia. Pode estar instaurado nele um comportamento à força.

Para o comandante Paulo Roberto Alonso, consultor técnico da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), a colocação do cinto é obrigatória no taxiamento. Ele afirma que a maioria dos incidentes ocorre nessa fase – o avião pode dar uma parada brusca com a entrada inadvertida de uma viatura ou um animal na pista.

– Esse assunto não é dúbio. É sim ou sim. Essa exigência é para não colocar em risco a pessoa e os demais passageiros. Não tem como abrir mão – explica Alonso.

Em nota, a Azul informou que “tem profundo respeito pelas normas de segurança e, por isso, cumpre com as exigências estabelecidas pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A Azul lamenta os transtornos causados à família e ressalta que o caso está sendo apurado para que situações como essa sejam evitadas”.

Empresas aéreas deverão preparar os funcionários

Uma norma da Anac publicada em julho deste ano estabelece os procedimentos de acessibilidade de passageiros. A resolução 280 foi criada a partir de um debate entre o Conselho Nacional de Pessoas com Deficiência e a Anac, em virtude de queixas recorrentes de acesso no transporte aéreo. Entre os dispositivos, está a obrigatoriedade de que companhias aéreas ofereçam cursos de capacitação para os funcionários lidarem com pessoas com deficiência, incluindo aquelas que têm dificuldade de compreender regras. A resolução vale a partir de janeiro.

Para a pedagoga Clarissa Alliati Beleza, diretora técnica da Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência e com Altas Habilidades no Rio Grande do Sul (Faders), a preparação dos profissionais é importante para que eles possam perceber o que é possível ou não fazer, baseado na condição da pessoa com deficiência. Clarissa afirma que, atualmente, está sendo adotada uma nova abordagem na discussão acerca do tratamento, com base na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, ratificada pelo Brasil em 2008.

– Antigamente, havia a concepção de que os problemas da pessoa com deficiência seriam só relativos à pessoa, então ela teria de se adaptar aos procedimentos padrões, e não esses procedimentos se adequarem à pessoa. Mas isso mudou. As dificuldades não estão só na pessoa, mas nas barreiras do meio e da estrutura da sociedade. Hoje, se trabalha o conceito social da deficiência.

COMO AGIR

PAIS
– O autista não deve ser tratado como um doente. É uma criança especial, com déficit no desenvolvimento, mas entende tudo e é capaz de progredir fazendo terapia.
– Leve a criança para a rua. Sair, caminhar e interagir com as pessoas são atividades terapêuticas.

COMUNIDADE
– Seja mais tolerante. Autistas podem não obedecer às regras sociais da maneira esperada, por isso podem não entender conceitos como esperar sua vez na fila e usar o cinto de segurança.
– A terapia comportamental reforça as boas atitudes, por meio da repetição e da recompensa, e pune as más. Não interfira obrigando porque o autista pode associar isso com punição.
– Você tem a capacidade de flexibilizar, o autista não.

Fonte: Duque Estrada


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