Publicado por: Ricardo Shimosakai | 25/11/2015

Voz, gravador e foco são os segredos em jogo para cegos


Campeão Jeferson Lisboa toca as peças para identificar seu tipo e posição antes de movimentá-las
Campeão Jeferson Lisboa toca as peças para identificar seu tipo e posição antes de movimentá-las

Jogar xadrez em alto nível já não é nada fácil. Imagine então sem poder enxergar as peças. E foi superando essa deficiência e seus adversários que  o professor de informática Jeferson Lisboa, de 36 anos, venceu o Campeonato Baiano Para Deficientes Visuais, encerrado neste , no Hotel de Trânsito do Exército, na Pituba.

E assistir a um jogo de xadrez adaptado também é uma experiência sem igual. Para finalizar cada jogada, é necessário dizer o tipo de peça (cavalo, torre, bispo etc.) e as casas para onde está sendo feita a movimentação (como no jogo batalha naval: A1, B3, G7 etc.).

Como o jogo é muito falado, os praticantes optam por usar palavras nos lugares da letra. “A gente usa nomes próprios para cada uma que assim evita confusão. Se A, Ana; B, Bela; C, Cézar; D, David; E, Eva; F, Félix; G, Gustav; H, Hector”, aponta Lisboa, ao explicar as regras convencionadas pela Federação Internacional de Xadrez (Fide).

“Às vezes, ele diz uma coisa e o adversário entende outra. Se marcar a jogada errada no tabuleiro vai jogar também errado”, observou o árbitro da competição, Wilter Vieira. Além disso, cada jogador grava lance por lance do jogo, falando eles mesmos a jogada em um gravador portátil.

“No jogo normal, se usa a planilha. Aqui a gente grava porque as letras se parecem muito e podem dar confusão. Se ocorrer erro, o árbitro tira a dúvida consultando a gravação que fizemos. Dificilmente dá problema”, explica  Lisboa.

Tato e pinos ajudam

Há importantes diferenças em relação ao jogo convencional. Todas as peças têm pinos de encaixe para evitar que  saiam do lugar. Além disso, as peças pretas vêm com um pontinho ou saliência no alto para facilitar a diferenciação. Cada atleta tem também seu próprio tabuleiro, usando o tato para ‘visualizar’ melhor as peças adversárias.

Falar é obrigatório para que o adversário responda às jogadas, mas tem que ser em voz baixa porque o silêncio faz parte do jogo. Durante as partidas, o quadro dos seis jogadores finalistas disputando o título do campeonato lembrava o de pessoas meditando no silêncio.

Quem chegou mais perto do campeão Jeferson Lisboa foi o ator de teatro para deficientes visuais Edson Vilas Boas, de 51 anos, vice-campeão. Os dois jogadores são os únicos da Bahia que praticam o xadrez convencional, inclusive online, pela internet, contra adversários sem deficiência. “A  gente chama de jogo às cegas, em que memorizamos o tabuleiro e a movimentação sem que alguém nos diga”, relatou Jeferson Lisboa, que também é presidente da Federação Brasileira de Xadrez para deficientes visuais.

Única mulher na competição, que na fase anterior à decisão teve semifinais em 11 regiões da Bahia, a pedagoga Alana Sheila, de 35 anos, aprendeu xadrez há um ano e meio. Ainda inexperiente, ela foi a 6ª colocada, ao lado do professor de história, Antônio Andrade. “Eu ensinei um aluno meu o braile e ele me ensinou xadrez”, disse ela.

Aurélio Lima

Fonte: Uol


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