Publicado por: Ricardo Shimosakai | 15/07/2016

Emoções de um jogo de futebol audiodescrito


Torcedores cegos no gramado. Eles vestem a camisa do Palmeiras, estão abraçados e comemoram cantando o hino do timeTorcedores cegos no gramado. Eles vestem a camisa do Palmeiras, estão abraçados e comemoram cantando o hino do time

Palmeiras versus Atlético Paranaense marcou duas estreias: foi o primeiro jogo do Campeonato Brasileiro 2016 e o primeiro jogo de futebol após a Copa do Mundo a oferecer o serviço de audiodescrição para os espectadores com deficiência visual. Lógico que eu, “porco fanático” e “fanático por audiodescrição”, não poderia deixar de estar lá para voltar a sentir as emoções de um jogo de futebol. Perdi a visão faz 35 anos e ainda tenho vivo na memória como era o antigo Parque Antártica, pois, desde pequeno, meu pai me levava para assistir quase todos os jogos do Palmeiras. Era grande a curiosidade de conhecer a novíssima e, segundo comentários generalizados, belíssima Arena Allianz Parque. Mas como satisfazer essa curiosidade sem alguém para descrever fielmente a arquitetura do estádio?

A bola do jogo

Início do jogo marcado para as 16:00h, encontro agendado para as 13:30h em um dos portões da Arena. A medida que os 24 torcedores com deficiência visual e seus acompanhantes convidados para o evento iam chegando, eram imediatamente conduzidos para seus assentos na arquibancada inferior do estádio. Todos presentes, faltando ainda bastante tempo para o início da partida, começou o serviço de audiodescrição com a Rosa Matsushita mostrando e descrevendo para cada um detalhes da bola que seria usada no jogo.

“Chamada de Ordem CBF Brasil 3 e com “gráfico amarelo inconfundível do Brasil”, ela é, segundo a Nike, sua fabricante, a “melhor já projetada em termos aerodinâmicos”. O modelo – produzido com 40% de couro sintético, 30% de borracha, 20% de poliéster e 10% de algodão – é o mesmo utilizado nos Campeonatos Espanhol, Inglês e Italiano”, dizia Rosa.

Reconhecimento do campo

Em seguida, fomos convidados a descer para um reconhecimento tátil do campo: a grama natural no campo e artificial nas laterais, as marcações que antigamente eram feitas com cal e agora são pintadas na grama, as traves, as bandeirinhas que em minha lembrança eram bem mais baixas e não tinham astes flexíveis, os bancos dos reservas que eram de madeira pintados de branco e agora são verdes, acolchoados, protegidos por uma semi cúpula de acrílico e foram transferidos das laterais de um dos gols para as laterais na altura do meio do campo. Durante todo esse percurso, Rosa e Bruno se alternavam: ela fazendo a audiodescrição; ele contando a história do Palmeiras com suas tradições, seus títulos, como surgiu o Parque Antártica, como nasceu o Allianz Parque…

Grupo de cegos fazendo o reconhecimento tátil do campo. Bruno e Rosa a frente com papéis nas mãos.Grupo de cegos fazendo o reconhecimento tátil do campo. Bruno e Rosa a frente com papéis nas mãos.

A surpresa

O reconhecimento do gramado terminou com uma surpresa. Pediram que todos os cegos sentassem no banco de reservas porque o periquito, mascote do Palmeiras (tenho dúvidas se já não deveria ser o “porquinho” risos) nos entregaria um presente. Um por um fomos chamados pelo nome para recebermos a nova camisa oficial do Palmeiras que, por sinal, seria a terceira estreia do dia.

Preleção do jogo

Já de volta a nossos assentos e “armados” com os radinhos e fones de ouvido de audiodescrição, ouvimos Bruno e Dimitri fazerem a preleção do jogo: descrições dos uniformes oficiais dos dois times, a aparência dos jogadores (algumas exóticas), a história dos confrontos entre os dois times, os uniformes de treino e a movimentação dos jogadores em campo enquanto faziam o aquecimento.

O jogo e a audiodescrição

Apesar do Palmeiras estar vencendo por 1 a 0, o primeiro tempo do jogo foi “morno”, e a audiodescrição também. Durante o intervalo, jogadores no vestiário recebendo instruções para corrigirem suas falhas, e os audiodescritores conversando com seus convidados para saberem o que precisariam melhorar. Iniciado o segundo tempo, bastaram 20 segundos para o Palmeiras mostrar que seria uma goleada, e os audiodescritores demonstrarem que também haviam assimilado direitinho qual deveria ser a estratégia para o segundo tempo.

Ainda no intervalo, Rosa trouxe uma maquete da Arena Allianz Parque para que pudéssemos tatear e assim entendermos melhor a grandiosidade do empreendimento.

Fim do jogo: Palmeiras 4, Atlético 0, e outra goleada da audiodescrição!

Audiodescritores sentados em uma mesa usando fones de ouvido e com microfones, ao fundo os torcedores com deficiência visualAudiodescritores sentados em uma mesa usando fones de ouvido e com microfones, ao fundo os torcedores com deficiência visual

Futuro

Pessoalmente adorei a experiência, me fez lembrar dos tempos, ainda com visão, que comparecer aos jogos do Palmeiras era parte da agenda de quase todos os finais de semana. Ouvi comentários muito semelhantes dos outros cegos que também puderam vivenciar essa experiência. Em relação à forma como foi feita a audiodescrição dos jogos da Copa com pessoas treinadas pelos audiodescritores da FIFA, gostei bem mais da “audiodescrição tupiniquim”!

Fonte: Blog da Audiodescrição


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